domingo, 26 de julho de 2015

Um lugar onde o tempo fez como os ônibus: parou

25/07/2015 - O Globo

Há 21 anos, a enorme boca em forma de meia-lua que hoje engole cerca de 550 mil pessoas por dia começava a fazer parte da paisagem e do cotidiano de niteroienses, cariocas e moradores do Leste Fluminense que passam por ali todos os dias. Inaugurado em agosto de 1994, o maior terminal rodoviário da América Latina, o João Goulart, foi construído na gestão do prefeito João Sampaio para ajudar a aliviar o trânsito atordoado pelos ônibus que paravam nos antigos terminais Norte e Sul, localizados cada um deles de um lado da Avenida Visconde do Rio Branco.

Tantos anos depois, a falta de investimentos em outros meios de transporte, o aumento do fluxo de passageiros e os planos de revitalização do Centro mantêm o João Goulart entre a operação sobrecarregada e à espera por reestruturação.

Em 18 de dezembro de 1994, o GLOBO-Niterói estampava a manchete "Usuários aprovam terminal". A reportagem abordava melhorias que, na ocasião, ainda estavam sendo implementadas no recém-inaugurado João Goulart. Em entrevista, o então presidente da extinta Niterói Terminais Rodoviários (Niter), Luiz Paulo Figueiredo, dizia que, com a inclusão de duas linhas de ônibus, o terminal atingiria sua capacidade máxima: 350 mil passageiros por dia. Atualmente, estima-se que 200 mil a mais usem o equipamento diariamente.

— Hoje, o número de linhas dentro do terminal é impressionante. Aumentou muito ao longo dos anos. Mas também acho que o lugar hoje é mais seguro. Antes, tinha muito assalto — afirma Figueiredo, que trabalhou no terminal de 1994 a 2008, um ano depois da concessão para a empresa Teroni.

O aumento de linhas e consequentemente de passageiros faz com que os ônibus demorem a deixar as baias ou a estacionar junto às plataformas, provocando congestionamentos. Em setembro do ano passado, a Teroni abriu um novo pátio, nos fundos do terminal, para aumentar a capacidade de operação. A empresa afirma que, desde que assumiu a administração do terminal, investiu R$ 22 milhões em melhorias e modernização. Mas a grande mudança mesmo aguarda a Operação Urbana Consorciada (OUC), projeto da prefeitura que promete reformar todo o Centro. É que o plano inclui a construção de um novo terminal, que integraria ônibus, metrô, barcas e o veículo leve sobre trilhos (VLT).

Enquanto o futuro não chega, Luiz Paulo, um veterano do terminal, se diverte com as histórias do passado. Boa parte das mais curiosas delas, segundo ele, aconteciam nos "achados e perdidos", anunciado pelo GLOBO-Niterói em 1994 como serviço prestado ali:

— É incrível como as pessoas perdem de tudo. Até dentadura foi parar lá!

sábado, 25 de julho de 2015

Justiça fixa multa por descumprimento da suspensão de ônibus gratuitos em Maricá

25/07/2015 -  O Globo

RIO - Os ônibus da Empresa Pública de Transporte (EPT), que circulam em Maricá sem cobrança de tarifa, estão com os dias contados. Nesta sexta-feira, a juíza Luciana Estiges Toledo, da 1ª Vara Cível da comarca de Maricá, fixou multa diária de R$ 20 mil pelo descumprimento de ordem judicial que determinava a suspensão imediata e parcial dos "vermelhinhos", como são conhecidos. No último dia 20, o desembargador Pedro Raguenet, deu decisão favorável às empresas Viação Nossa Senhora do Amparo e Viação Costa Leste, que recorreram da sentença que mantinha os ônibus em circulação. As empresas alegaram que estão sofrendo desequilíbrio financeiro e que possuem a concessão para explorar o serviço no município.

O modelo de tarifa zero começou a funcionar em 18 de dezembro de 2014, por iniciativa da prefeitura de Maricá. Em maio, a frota de 13 ônibus alcançou a marca de um milhão de passageiros transportados, um mês após as empresas perderem a ação em primeira instância, contra a EPT. No último dia 20, porém, o desembargador Pedro Raguenet julgou o recurso proposto pela Viação Nossa Senhora do Amparo e decidiu pela paralisação, imediata, do serviço dos "vermelhinhos" nas áreas que são atendidas pelas concessionárias de transporte.

As empresas alegavam que possuem a concessão para explorar o serviço e que não houve comunicação prévia do município sobre a implantação do projeto. Nestes meses de operação, elas afirmam que sofreram desequilíbrio financeiro. Entretanto, não houve a suspensão durante a semana e, após alerta do Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro, a juíza Estiges Toledo fixou multa diária de R$ 10 mil para a prefeitura e mais R$10 mil para a Empresa Pública de Transporte, enquanto a decisão do desembargador não for acatada.

Procurada, a prefeitura respondeu que não iria comentar a decisão, por que não foi formalmente notificada, e confirmou que os "vermelhinhos" estão funcionando normalmente.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Nova pintura no BRS de Copacabana

22/07/2015 - Memória do Transporte Público

Foto de Gabriel de Paiva / Agência O Globo Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Serviço realizado em julho de 2015, ganhando nova faixa azul e tachões. Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

terça-feira, 21 de julho de 2015

Mercado imobiliário na área se valorizou

19/07/2015 - O Dia, Observatório da Mobilidade

"Minha Praia Barra da Tijuca, apartamento com dois quartos, andar alto, vaga na garagem, 50 metros quadrados. O Condomínio Minha Praia fica na Região Olímpica. Terá em frente uma estação do BRT Transolímpica."

Uma enxurrada de anúncios como esse domina os sites de corretoras de imóveis da Zona Oeste. De julho de 2012, quando as obras da Transolímpica começaram, até julho deste ano, os corretores da região foram os primeiros a sentir os impactos do corredor.

Segundo o Sindicato da Habitação (Secovi-Rio), na maioria dos bairros por onde o BRT vai passar, o valor médio do metro quadrado para venda subiu muito além da variação geral na cidade, no mesmo período, que foi de 23,12% (passou de R$ 7.603 para R$9.361, levando em conta imóveis de 1 a 4 QUARTOS, do tipo "apartamento-padrão" usados).

Em Sulacap, onde haverá um terminal do BRT, a valorização do metro quadrado chegou a 51,98% (pulando de R$ 2.897, em 2012, para R$ 4.403, em 2015). Em Curicica, , o preço médio subiu 40,97 % (de R$ 4.210 para R$ 5.935). Na Barra da Tijuca, houve variação de 30,27 % (de R$ 7.967 para R$ 10.379).

"Quando o corredor estiver pronto, a estimativa é que os imóveis próximos a locais com estações do BRT valorizem ainda mais, de 15% a 20%", aponta o vicepresidente do Secovi-Rio, Leonardo Schneider. Segundo ele, a variação acima da média da cidade indica o efeito do novo corredor sobre o mercado imobiliário.

O autor do anúncio do início do texto é o consultor imobiliário Marcelo Goering. Ele aproveitou o momento em que se iniciavam as especulações sobre o Transolímpica, antes do início das obras, para arrebentar nas vendas. Chegou a vender nove apartamentos só para uma pessoa interessada em COMPRAR barato para revender mais caro alguns anos depois. Devido à crise no mercado, no entanto, muitos investidores estão se dando mal agora.

"Tem muita oferta para pouco cliente. Muitos estão desistindo de vender e colocando para ALUGAR", conta.

Transolímpica deve desafogar estações do BRT Transoeste

19/07/2015 - O Dia, Observátorio da Mobilidade

Primeira via expressa em construção no Rio depois da Linha Amarela - inaugurada há 18 anos -, a Transolímpica não vai só beneficiar os bairros cortados por ela. É também esperança para desafogar o BRT Transoeste, que recebe 184 mil passageiros por dia. Com uma faixa exclusiva para ônibus articulados e duas para carros entre o Recreio e Deodoro, em cada sentido, o corredor atingiu a marca de 65% das obras executadas esta semana.

Para a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), os moradores de bairros entre Bangu e Campo Grande, que trabalham no Recreio e na Barra, deverão utilizar o novo BRT, tirando a sobrecarga existente hoje na Estação Mato Alto, do Transoeste. Para isso, eles poderão fazer conexão entre as linhas de ônibus comuns e os serviços da Transolímpica nos futuros terminais de Sulacap ou de Deodoro.

O presidente do CONSÓRCIO operador do BRT, Jorge Dias, também acredita que o ajuste de demandas será uma consequência positiva da Transolímpica. Ainda não há uma estimativa precisa de quanto poderá ser a redução do fluxo no Mato Alto, que recebe 14 mil passageiros por dia.

Inauguração está prevista para maio

Com início das operações previsto para maio do ano que vem, o Transolímpica vai interligar nove bairros: Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, Camorim, Curicica, Taquara, Jardim Sulacap, Magalhães Bastos, Vila Militar e Deodoro, sendo uma alternativa à Linha Amarela para quem vive na Baixada Fluminense e nas regiões próximas à Avenida Brasil. O novo BRT fará conexão com o Transcarioca, em Curicica, com o Transoeste, no Recreio, e com a SuperVia, em Deodoro. Segundo a SMTR, passageiros dos ramais Santa Cruz e Japeri, que fazem conexão com o BRT em Madureira, poderão passar a fazer essa integração em Magalhães Bastos ou Deodoro e seguir para a Baixada de Jacarepaguá via Transolímpica. Segundo a prefeitura, o Terminal Recreio será concluído daqui a cinco meses e servirá de integração para toda a malha de BRTs.

Passageiros terão ligação expressa Recreio-Madureira

Quando o Lote Zero do Transoeste (trecho entre a Alvorada e o Jardim Oceânico) e o Transolímpica estiverem prontos, serão criados dez serviços novos de transporte, segundo a SMTR. Haverá ligações diretas, sem baldeação, por exemplo, entre Madureira e o Recreio, já que os ônibus poderão sair de um corredor de alta capacidade e entrar em outro.

Em 2016, será possível fazer VIAGENS expressas nas seguintes rotas: Recreio - Jardim Oceânico, Tanque - Jardim Oceânico, Centro Olímpico - Jardim Oceânico, Alvorada - Sulacap, Recreio - Deodoro e Madureira - Recreio. Serão também criadas as linhas paradoras Recreio - Jardim Oceânico, Alvorada - Jardim Oceânico, Centro Olímpico - Jardim Oceânico e Recreio - Sulacap. Ao todo, 214 veículos articulados com 180 lugares serão incorporados ao sistema.

Os especialistas em Engenharia de Transportes Alexandre Rojas, da Uerj, e Eva Vider, da UFRJ, concordam que a via expressa vai melhorar o desenvolvimento urbano, além de permitir a ligação da rede de transporte público, mas desconfiam se a obra desafogará o Transoeste. "O Transoeste atende mais a região de Santa Cruz e Campo Grande. O Transolímpica fica em outra direção", diz Rojas.

"Esse corredor tem um caráter estratégico muito importante, porque vai ser o primeiro a integrar com os dois já existentes (Transoeste e Transcarioca), aumentando as opções dos passageiros seja nos transbordos ou até mesmo para se criar serviços que saiam de um corredor e entrem em outro", afirma.

O BRT Transolímpica terá mais dois terminais (um nas Avenidas Salvador Allende e Abelardo Bueno e outro na Avenida das Américas - Recreio) e 18 estações. A prefeitura estima que o tempo de VIAGEM entre Deodoro e Recreio será reduzido de 1h30 para 40 minutos, beneficiando 70 mil passageiros por dia. Serão 25 km de extensão. Como o projeto é feito em Parceria PúblicoPrivada, haverá pedágio para carros, que deve ter como parâmetro o da Linha Amarela.

domingo, 19 de julho de 2015

Condutores de alta tensão: a rotina estressante dos motoristas de ônibus do Rio

Temidos como os maiores predadores do trânsito carioca, eles também são vítimas do caos no sistema de transportes

POR PEDRO MOTTA GUEIROS

19/07/2015 - o Globo


Cenas de motoristas de onibus no Centro da cidade - Daniel Marenco / Daniel Marenco


RIO — Quando a fluidez do trânsito permite, motoristas das linhas de ônibus do Rio fazem a carroceria chacoalhar nas curvas e aceleram além do limite entre o arrojo e a imprudência. Na falta de um autódromo na cidade, a corrida é nas ruas. Apesar da disputa para ver quem carrega mais reclamações pelo caminho, todos estão juntos no mesmo sofrimento, que submete a profissão às cobranças de patrões e usuários e às doenças de corpo e mente. A maioria dos motoristas a serviço das 43 empresas integrantes do sindicato Rio Ônibus, que reúne os quatro consórcios responsáveis por todo o sistema no município, não tem suporte de cobrador, nem plano de saúde.

— O pobre profissional do volante é um sujeito que dá mais do que é capaz, trabalha quase sob regime de escravidão. Privado do contato com a família, do sono e do lazer, chega a comer e dormir dentro do ônibus — diz Dirceu Rodrigues Alves, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), que trabalha em Brasília pela revisão da legislação do setor. — Por terem insalubridade, médicos, bancários e operadores de telemarketing cumprem jornada de seis horas. Por que os motoristas, que enfrentam insalubridade, periculosidade e vivem uma rotina penosa, podem trabalhar por 12 ou 13 horas?

DO GRAJAÚ À GÁVEA EM TRÊS HORAS



No Rio, o contrato coletivo prevê carga de 42 horas semanais, com duas horas extras por dia, sem contar os excessos cometidos por patrões e empregados. Com os 9% de reajuste, obtidos pelo último acordo, o piso salarial de motoristas e cobradores cariocas passou para R$ 2.134 e R$ 1.177, respectivamente. De acordo com as regras de trânsito, o menor deve ser protegido pelo maior. Na lei do mercado, ocorre o contrário.

— Muitos dos supervisores, que já foram motoristas, precisam nos punir para reduzir a folha. Toda a cobrança é em cima do motorista — afirma o motorista da linha 893 (Campo Grande-Palmares) José Ricardo Ferreira, que chegou ao fim da linha. — Não aguento mais.

O jogo é bruto. Duas partidas de futebol, mais os acréscimos, 188 minutos. Esse foi o tempo que Gediel Jerônimo e a cobradora Ioneida Souza, da linha 435, levaram para cumprir os 24km entre o Grajaú e a Gávea na manhã do dia 23 de junho, a uma velocidade média de 7,6km/h, por conta de um acidente que triplicou o tempo normal da viagem. Em qualquer circunstância, a dupla tem a sensação de correr contra o tempo.

— Minha profissão vai acabar — disse Ioneida, sem mostrar o mesmo empenho para escapar do fim como fez quando se atirou no chão do ônibus que invadiu um prédio em Ipanema. — Já avisaram que vão demitir. Estou me preparando.

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, houve 647 admissões contra 941 demissões de "ajudantes de motoristas" no município do Rio no último mês de maio. O Rio Ônibus alega que os cobradores devem ser absorvidos em outras funções do sistema. Entre os motoristas, maio registrou 1.113 entradas e 890 saídas do emprego. A adoção dos corredores exclusivos e o pagamento digital são viagem sem volta. Não é só pela dupla função que o motorista terá novo papel.

— Nosso trabalho tem foco no motorista como um mediador de conflitos — diz Ana Rosa Bonilauri, diretora da Universidade Corporativa do Transporte (UCT), um centro de capacitação que é bancado pelas empresas e já atendeu 60 mil rodoviários desde 2008. — O motorista tem orgulho da profissão.

A afirmação se apoia nos números da UCT sobre a média de permanência do motorista na função, que subiu de 6,6 anos em 2010 para 9,6 anos em 2014. Poder concedente do sistema, que emprega cerca de 40 mil pessoas, a prefeitura também defende a evolução dos serviços, destacando que o número de reclamações de usuários, feitas pelo teleatendimento, caiu em 30,5% de 2013 para 2014. Os programas de treinamento oferecidos pelas instituições do setor contam com simulador semelhante aos da aviação.

Fora do conforto das salas de aula, a sensação de desamparo prevalece, mesmo que os rodoviários tenham acumulado 59,5% de aumento, contra uma inflação de 37,4%, nos últimos cinco anos. O desânimo é sintoma comum. Submetidos à poluição, ao calor e à trepidação do motor, os rodoviários são vítimas de transtornos psiquiátricos, hipertensão e de problemas de coluna, segundo Dirceu. Embora a legislação determine que a exposição máxima ao barulho seja de 85 decibéis, em média, ao longo de oito horas, estudos da Abramet mostram que o motorista tem suportado volumes de 87.

— E muitas vezes trabalham por até 16 horas para fazer um dinheiro a mais e para que a empresa economize por não ter que contratar — diz Dirceu, acrescentando que os motoristas resistem a buscar reabilitação. — Se forem afastados, só têm a cair de faixa salarial, porque são habilitados apenas para dirigir.

LEÃO NO TRÂNSITO SELVAGEM

No passado, o tratamento já era leonino. Por conta do uniforme cáqui e do desafio de matar um leão por dia, o motorista carioca era conhecido pelo nome do animal. Na lei da selva urbana, em que o interesse particular ocupa o espaço público, a confusão é tamanha que o mais temido predador pode ser a maior vítima.

— Se o trânsito do Rio piorou para todos, imagina para o motorista — diz a engenheira de transportes Eva Vider, professora da Escola Politécnica da UFRJ. — Quando a cidade não estava em obras, os ônibus tinham velocidade média de 17 a 20km/h, com as paradas. Hoje a média está entre 8 e 10km, em vias de tráfego misto, sem contar os corredores exclusivos.

Entre queixas procedentes ou não, está a chamada "dobrada". Cumpridas as sete horas, os motoristas alegam que precisam iniciar nova jornada, para reduzir horas extras e tributação.

— A segunda parte é paga na hora, em dinheiro. Quando eu dirigia, também aceitava, mas temos que brigar pela incorporação ao salário — disse o presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores do Rio, José Sacramento.

COMIDA DEFUMADA NO DIESEL

Por meio de sua assessoria, o Rio Ônibus diz que "essa suposta prática é passível de fiscalização pela Justiça do Trabalho". Ao contrário do processo legal, o rito das ruas é sumário. Toda a insatisfação atende pela mesma interjeição que precede o tratamento impessoal e intransferível: "Ô, motorista!". Segundo o professor de português Sérgio Nogueira, palavras-ônibus, como "definir" e "colocar", carregam vários significados e tomam o lugar de outras mais precisas. No caso, ou no caos, do trânsito, uma delas é "motorista".

— Ninguém quer saber se a gente tem nome ou família. Tudo é o motorista — diz Gediel.

O bom humor e o improviso servem para levantar o ânimo. Como os intervalos entre as viagens, em geral, não levam mais que cinco minutos, o motor serve para esquentar as marmitas. Ao levantar o capô, surge um compartimento conhecido como micro-ondas ou defumador, por aquecer a comida com "notas" de óleo diesel.

O calor nem sempre é bem-vindo. Para refrigerar a perna, colada ao motor, trabalha-se com a calça dobrada na altura do joelho. Outro comportamento padrão são os revestimentos do banco e do vidro que separa a cabine do resto do ônibus. Além de garantir certa privacidade, a cortina, estampada com o escudo do clube ou com a imagem do santo de devoção, traz referências familiares, embora a responsabilidade seja cada vez mais solitária.

Num outro carro da linha 435 (Grajaú-Gávea), a cabine ainda dividida pela rivalidade Fla-Flu lembra que um não pode viver sem o outro. Entre a tricolor e o flamenguista, a rima com o cobrador e o motorista remete à versão da marchinha de Emilinha Borba. Mesmo que a canoa não vire e que o trânsito permita, é difícil saber quando o motorista vai chegar lá, ao lugar em que o respeito anda na frente da hostilidade.

VERGONHAS EXPOSTAS A CÉU ABERTO

Sob a chuva fina da madrugada, a luz branca, vinda da janela do apartamento térreo de um condomínio em Campo Grande, indica que a casa ainda nem foi dormir quando João Carlos França já acordou para mais um dia de trabalho. São duas da manhã de sexta-feira e o motorista, saído do banho, anda de samba-canção pela casa, enquanto a mulher e uma das filhas veem TV. Após lustrar os sapatos e limpar os óculos, França, como é conhecido na pista, veste o fardamento com o qual vai conduzir a linha de ônibus mais longa do município, a 2335. São 75 quilômetros entre Santa Cruz e Castelo, via Barra, cumpridos quatro vezes, das quatro da manhã até a hora em que São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas, e o trânsito permitirem.

Aos 53 anos, sendo 18 ao volante, França convive com os problemas comuns à categoria, embora seu ônibus seja executivo, com tarifa de R$ 14,90. A segunda viagem do dia, que pega o rush matinal no sentido Castelo, chega a levar sete horas. Com as mãos tremendo logo que acorda, França mostra que nem tudo é passageiro na rotina de quem vive sob estresse permanente.

— Isso me acontece todo dia — diz ele, que é também eletricista e, portanto, duplamente sabedor da diferença de resistência entre os condutores — Não sei até onde eu suporto.

EXAME TOXICOLÓGICO A PARTIR DE JANEIRO



Entre as 45.594 indenizações por afastamento que o INSS concedeu aos rodoviários no ano passado, os empregados das linhas urbanas representam a maior parte, com 20.203 pensões, contra 16.528 do transporte de carga.

— As estatísticas são difusas. Só teriam valor se houvesse um banco de dados unificado, com todas as alterações do dia a dia desses profissionais — afirma Dirceu Rodrigues Alves, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego.

Na prática, os números têm pouco valor. Comparando os contracheques de maio nos últimos três anos, França recebeu R$ 1.212 em 2013; R$ 1.333 em 2014 e R$ 707 este ano, já deduzidos os 40% do salário pagos na primeira quinzena do mês. Antes de sair, ao apertar a gravata em frente ao espelho, o motorista se depara com o desafio de se apresentar impecavelmente. Qualquer amarrotado na lataria pode implicar descontos e expor a risco a integridade física do coletivo. Sofrer ameaças de motoristas armados, como aconteceu naquele dia, faz parte da rotina do rodoviário, que também se sente acuado dentro da garagem:

— Sou cobrado se pegar menos de 80 passageiros num dia, mas ganho um real por passageiro depois de 120. É o que o pessoal chama de bife.

No fim do expediente das sextas-feiras, o bônus é cerveja. Além do bafômetro, em breve a categoria terá que passar por exames toxicológicos com abrangência de 90 dias. A medida, condição para a renovação da carteira de habilitação, está prevista para começar a vigorar em janeiro.

— É um exame caro, de cerca de R$ 300, que será cobrado do motorista — explica Dirceu, empenhado em derrubar a exigência, que consta da chamada Lei do Descanso, aprovada em janeiro. — Não me interessa o que o motorista usou há três meses e sim se ele está sob o efeito de drogas no exercício do trabalho. Para isso, basta um teste imediato, como o do bafômetro ou o de saliva.

Para França, a abstinência é alimentar. Só come quando chega em casa, por volta das 15h. Um copo de café e um cigarro servem para dar a partida, ainda a pé, no trecho que percorre às escuras até pegar um ônibus, por volta das 2h40m, com destino à garagem da empresa Pégaso, em Cosmos. De lá, dirige por 10km, sozinho, até chegar ao ponto de partida, em Santa Cruz. Ao passar pela Favela de Antares, para o ônibus para que um cachorro atravesse a pista.

França conduz um coletivo novo, um privilégio entre os colegas da empresa, que teve 102 veículos interditados, entre maio e junho, por ações do Procon. No rádio, a música "Patience", do Guns N' Roses, dá o tom do que está por vir, tanto pelo título quanto pelo nome da banda. Com uma arma potencial nas mãos, tão letal quanto aquelas que já viu apontadas em sua direção, França precisa ter paciência para ver o entusiasmo florescer novamente.

— Já tive prazer em dirigir; hoje, faço por necessidade, não por amor — disse, sem se dar conta de que o sufoco de todo dia reforça os laços com pai, que foi motorista por 45 anos. — Está no sangue. Sou dedicado ao máximo.

Há seis anos sem cobrador, França abre o caixa com R$ 72 reais de suas economias para facilitar o troco. Embora o aviso colado à cabine determine capacidade de 48 passageiros sentados e nenhum em pé, o ônibus já está cheio de irregularidades após 40 minutos de viagem. Entre dezenas de passageiros de pé, as mulheres já se acostumaram com a igualdade no desconforto. França conserva o cavalheirismo ao descer para acomodar no bagageiro as caixas de camarão que uma moradora de Guaratiba vende na Zona Sul. Em Copacabana, libera a bagagem, pega o Aterro e chega ao Castelo ainda às escuras.

Depois de descer por cinco minutos para usar o banheiro do terminal — outro privilégio em relação aos colegas, que muitas vezes exibem as vergonhas da profissão a céu aberto —, França reclama, dizendo que o despachante deixou o colega da linha Castelo-Recreio sair na sua frente. Encobertos pela penumbra, embora fossem capazes de repetir a cena em qualquer condição de temperatura e pressão, os dois carros da mesma empresa emparelham na altura da Glória e alternam suas posições, até se espalharem junto com a luminosidade de mais uma manhã.

De volta a Copacabana, a conversa e o trânsito fluem sem interrupções. A amizade com a chefe de enfermagem de um hospital rende a França companhia diária e ajuda para toda a família. Apenas os rodoviários associados ao Sest-Senat (Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) têm atendimento médico e odontológico, além de nutricional, fisioterápico e psicológico, na unidade de Deodoro, que presta cerca de 41 mil consultas anuais, segundo o Rio Ônibus. Não é o caso de França, que paga R$ 73 mensais, a mesma quantia desembolsada pela empresa, por um plano individual, que só contempla os funcionários mais antigos. O tempo de serviço ajuda a encontrar atalhos. Ao cruzar a ruela que leva à praia, em Guaratiba, França mostra o caminho que faz nos fins de semana para comprar o mesmo camarão que ajuda a transportar. Nos dias de trabalho, é preciso deixar as barbas de molho. Após mais um café e um cigarro em Santa Cruz, vem o momento de embrulhar o estômago.

FRIEZA EM SITUAÇÕES LIMITE

No emaranhando de pistas e veículos que se cruzam na Avenida das Américas, a frente do ônibus encosta na traseira de um carro, de onde um sujeito desce para tirar satisfações. Para quem não tinha a visão completa da cena, o relato de França, de que o outro motorista desembarcou com uma pistola na mão, antes de escondê-la sob a camisa, é corroborado pelo que se ouve da discussão travada pela janela.

— Para que isso? — reagiu o condutor do 2335. — Não sou bandido. Segue o seu caminho.

Antes de fazê-lo, o motorista atravessa seu carro na frente do ônibus, se certifica de que não houve avaria e ainda assim anota a placa.

— Se for policial, vai me encher de multa.

Antes de buscar um advogado, França já tem a solidariedade dos passageiros.

— Fortes emoções às 10 da manhã? — indaga uma senhora, ao desembarcar na Barra. — Se esse homem puxou uma arma agora, imagina o que estará fazendo às 10 da noite.

A essa hora, França já estará protegido pelos lençóis e pela sensação de missão cumprida.

Por meio da assessoria do Rio Ônibus, a Pégaso diz que analisa as infrações de trânsito cometidas, avalia a possibilidade de recurso ou não e só efetua algum tipo de cobrança ao motorista em casos flagrantes de excesso de velocidade e avanço de sinal. Com o devido desconto, o saldo é desfavorável ao motorista que ousa subverter a ordem. Quem janta na hora do almoço e dorme com a família e o sol ainda de pé já se acostumou a andar na contramão.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/condutores-de-alta-tensao-rotina-estressante-dos-motoristas-de-onibus-do-rio-16836705#ixzz3gL0AHnKj 
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sábado, 11 de julho de 2015

Motoristas de ônibus dão troco com veículos em movimento no Rio

11/07/2015 - G1 RJ

Parte dos motoristas de ônibus do Rio de Janeiro dirige e também cobra passagens. A presença do cobrador não é exigida em todas as linhas. Mas o problema é que para ganhar tempo e não atrapalhar o trânsito, alguns motoristas dão o troco aos passageiros com o ônibus em movimento e isso é proibido. Como mostrou a GloboNews, especialistas disseram que dividir a atenção em situações como essas é muito arriscado.

O teste foi feito com seis motoristas de ônibus que também acumulam a função de cobrador e três deles deram o troco com o veículo em movimento. Em uma das situações, antes mesmo do dinheiro ser entregue pelo passageiro, o motorista já tinha arrancado com o ônibus. Ele olhou várias vezes para o caixa que fica ao lado do banco.

"Ou ele bem presta atenção no volante ou ele bem dá o troco, né?", reclamou uma passageira.

O Código Disciplinar dos Ônibus autoriza motoristas a cobrarem passagem, mas apenas com o veículo parado. Em caso de descumprimento da norma, o motorista é multado em R$ 162,72 e perde cinco pontos na carteira.

Segundo uma neurocientista, dar o troco com o ônibus em movimento é tão perigoso quanto falar no celular ou mandar mensagem enquanto se está dirigindo.

"Dirigir em grande parte é automatizado, tem toda uma rede de regiões cerebrais relacionadas a isso. Mas uma parte do ato de dirigir é voluntária também: tem que prestar atenção se o sinal está aberto, a questão da direção defensiva, então esta parte é voluntária, e aí vai dividir recursos com outras coisas voluntárias que você está fazendo, que não são automáticas. Ele [motorista] não tem condições de processar estes estímulos de maneira adequada e isso pode facilitar a presença de acidentes", contou a neurocientista Letícia de Oliveira.

O Rio Ônibus, sindicato que representa as empresas de ônibus da cidade do Rio, afirmou que os motoristas são orientados a só cobrar passagem com o veículo parado. Em relação aos três motoristas flagrados, as empresas Real e Estrela Azul disseram que vão encaminhar os profissionais a um programa de requalificação e avaliar o histórico dos funcionários para decidir a punição deles, que pode variar de suspensão até demissão. A empresa Nossa Senhora das Graças afirmou que vai afastar o motorista para que ele passe por um novo treinamento.