sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Linhas de ônibus clandestinas operam sem repressão em vias movimentadas da capital

Em três dias, repórteres do GLOBO flagraram 23 coletivos realizando transporte ilegal de passageiros no Centro e na Zona Sul

POR SÉRGIO RAMALHO

17/10/2014 - O Globo


Ônibus pirata faz parada irregular na Avenida Chile, no Centro do Rio, para pegar passageiros. Apesar de o lugar ser bastante movimentado, já que existem linhas regulares que fazem ponto no local, os coletivos clandestinos operam sem qualquer repressão - Hudson Pontes / Agência O Globo
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RIO — Avenida República do Chile, Centro do Rio, 16 horas. Um ônibus encosta no ponto reservado a taxistas em frente a um dos acessos à estação Carioca do metrô. Na porta, um homem vestindo bermuda, camiseta, chinelos de dedo e óculos escuros anuncia, ao berros, o itinerário da linha irregular que tem como ponto final o bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. É o início de mais uma jornada da viação pirata.

Todos os dias à tarde, o trecho de pouco mais de cem metros entre o prédio da Caixa Econômica Federal e a estação do metrô no Largo da Carioca é transformado numa espécie de rodoviária pirata, onde coletivos antigos e malconservados — alguns com multas e IPVA atrasados há sete anos — fazem o transporte de passageiros livremente, partindo com intervalos de até meia hora, sob a vista grossa de PMs e guardas municipais.

MOVIMENTO MAIOR À TARDE

O serviço irregular também é feito durante as manhãs, entre 6h e 9h, mas é a partir das 16 horas que a movimentação dos piratas fica mais intensa, inclusive, com coletivos parados em fila dupla na Avenida República do Chile. O vaivém dos piratas se prolonga até 22 horas. Repórteres do GLOBO acompanharam por três dias — de segunda à última quarta-feira — a atividade ilegal.

Nesse período, 23 coletivos foram flagrados realizando o transporte irregular de passageiros, circulando livremente pelo Centro e também pelas avenidas Vieira Souto, em Ipanema, e Atlântica e Princesa Isabel, em Copacabana. Apesar de 14 dos coletivos estarem em situação irregular, com multas e licenciamento anual atrasados, nenhum dos veículos foi abordado por patrulhas da PM ou qualquer outro tipo de fiscalização.


Coletivo pirata pega passageiros na Avenida Vieira Souto, em Ipanema: linhas ligam Zona Sul a municipios da Baixada Fluminense - Hudson Pontes / Agência O Globo

Cinco dos coletivos que faziam a ligação entre bairros da Zona Sul do Rio com os municípios de Queimados e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, acumulam juntos R$ 16 mil em multas atrasadas. Três deles tinham feito o último licenciamento em 2007, conforme pesquisa realizada a partir de dados do Detran.

Na Avenida República do Chile, onde todas as tardes a movimentação dos coletivos ilegais remete a uma rodoviária pirata, com veículos parados em fila dupla, a situação não é diferente. Seis dos ônibus que fazem ponto final diariamente na região estavam com IPVA atrasado e multas acumuladas. Um deles não passa por vistoria há dez anos.

A falta de documentação e o mau estado de conservação, contudo, não afugentam os passageiros, que pagam valores até acima do praticado pelas empresas regulares: entre R$ 5 e R$ 10, neste caso quando o coletivo tem ar-condicionado. Para o usuário, o principal atrativo está na rapidez do percurso:

— O ônibus convencional custa R$ 3, mas vai parando em todos os pontos, leva mais de duas horas para chegar a Campo Grande. Isso quando não pega engarrafamento. O pirata é expresso — diz a diarista Lúcia Pereira, de 38 anos.

A justificativa usada pela moradora da Estrada do Monteiro, em Campo Grande, geralmente é repetida pelos demais usuários do transporte ilegal. Principalmente, os passageiros que recorrem aos piratas vindos da Baixada Fluminense.


Veículo pirata com destino ao município de Queimados, na Baixada Fluminense, circula livremente pela Avenida Princessa Isabel, em Copacabana - Hudson Pontes / Agência O Globo

A equipe de reportagem flagrou duas linhas irregulares em atividade, ligando o Jardim de Alah ao município de Queimados e ao bairro de Cabuçu, em Nova Iguaçu. O itinerário aparece em placas afixadas à frente dos coletivos, que circulam pela orla. Parte do percurso é feita com a porta aberta. De pé nos degraus, o cobrador anuncia aos gritos o itinerário e a tarifa: R$ 10.

'Moro em Queimados e prefiro o pirata porque pego o ônibus na esquina da minha rua e vou direto até o trabalho, em Copacabana. Sem ele, tenho que pegar um ônibus para o Centro do Rio e depois outro para a Zona Sul'
- JOSÉ CARLOS VIEIRA
Pedreiro
— Tem ônibus que aceita até vale-transporte e bilhete único, mas cobra uma taxa. Moro em Queimados e prefiro o pirata porque pego o ônibus na esquina da minha rua e vou direto até o trabalho, em Copacabana. Sem ele, tenho que pegar um ônibus para o Centro do Rio e depois outro para a Zona Sul — argumenta o pedreiro José Carlos Vieira, de 41 anos.

Para aceitar o "dinheiro eletrônico", os piratas lançam mão de uma parceria ilegal com vans que contam com validadores. Há casos ainda em que os passageiros descarregam o cartão, pagando taxa de 15%, e utilizam o serviço de transporte irregular durante um mês.

A tecnologia também serve para driblar a fiscalização. Os piratas utilizam radiotransmissores e a internet, por meio de smartphones, para trocar informações e evitar blitzes. Na tarde da última segunda-feira, ao notar que seu coletivo havia sido fotografado na Avenida Atlântica, um dos motoristas alertou os demais piratas, que passaram a circular sem exibir a placa indicando o itinerário.

De acordo com a assessoria do Departamento de Transportes Rodoviários (Detro), de janeiro até a primeira quinzena deste mês, 140 ônibus piratas que operavam irregularmente linhas intermunicipais foram apreendidos em fiscalizações na Região Metropolitana e em municípios do interior do estado. O órgão não tem uma estimativa do número de piratas em circulação no estado.

PREFEITURA DIZ QUE É CASO DE POLÍCIA

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Ainda segundo o Detro, a fiscalização dos ônibus piratas que circulam pela capital é feita pela Secretaria municipal de Transportes, ficando sob atribuição do órgão estadual apenas a repressão aos que fazem o transporte intermunicipal.

A Coordenadoria Especial de Transporte Complementar da prefeitura argumenta que tem atribuição de fiscalizar apenas as vans, mas que, eventualmente, recolhe coletivos piratas. Contudo, o órgão não tem poder para multar esses veículos.

Já a assessoria da Secretaria municipal de Transportes afirma que atua na fiscalização de ônibus regulares e se, eventualmente, localiza em suas operações coletivos piratas, estes são encaminhados à polícia, uma vez que tal ação constitui crime: "Ônibus piratas são um caso de polícia e fogem a alçadas da secretaria, que atua com base no Código Disciplinar que regula a frota regular do município".

 
 
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