segunda-feira, 3 de março de 2014

Veículos legalizados driblam fiscalização e deixam usuários a pé

3/03/14 - O Globo

Para o presidente do Rio Ônibus, Lélis Marcus Teixeira, a questão das vans em Jacarepaguá está mal resolvida

LUIZ ERNESTO MAGALHÃES

O cabeleireiro Ubiratan Amorim (de bermuda azul): depois das 23h, as vans desaparecem da Estrada Pau da Fome, o que o obriga a voltar a pé para casa
 O cabeleireiro Ubiratan Amorim (de bermuda azul): depois das 23h, as vans desaparecem da Estrada Pau da Fome, o que o obriga a voltar a pé para casa Foto: Custódio Coimbra / Fotos de Custódio Coimbra
Foto: Custódio Coimbra / Fotos de Custódio Coimbra

O cabeleireiro Ubiratan Amorim (de bermuda azul): depois das 23h, as vans desaparecem da Estrada Pau da Fome, o que o obriga a voltar a pé para casa Custódio Coimbra / Fotos de Custódio Coimbra

RIO - Passados pouco mais de três meses da legalização do transporte alternativo em Jacarepaguá, o sistema está longe de estar organizado. Em lugar de circular pelos itinerários pré-determinados em contrato com a prefeitura, muitos motoristas deixam passageiros a pé à espera de transporte enquanto competem com os ônibus nos principais corredores de tráfego do bairro, agindo como piratas. Essa leva de "piratas oficiais" desfruta de uma série de vantagens em relação aos informais. Além de os motoristas terem licença em definitivo e os veículos adotarem um novo padrão de identificação, os condutores podem inclusive transportar passageiros com o Bilhete Único Carioca (BUC). Isso porque os carros estão equipados com validadores fornecidos pelo RioCard.

Para quem depende de uma alternativa de transporte em trechos com poucos ônibus, a falta de vans é um problema recorrente. A dona de casa Sebastiana Santos Queiroz, de 32 anos, que utiliza lotada para circular pelo bairro, é uma dessas pessoas. O GLOBO acompanhou um dia na rotina de Sebastiana, que diariamente perde tempo esperando pelo transporte com o filho de 1 ano no colo, na Avenida dos Mananciais. No primeiro dia, ela queria voltar para casa na Estrada do Curumau, a cerca de dois quilômetros. Passada meia hora de espera, Sebastiana desistiu e resolveu seguir a pé até sua casa. Não muito longe dali, na Estrada do Pau da Fome, também na Taquara, a situação não era diferente e usuários de vans aguardavam longo tempo nos pontos.

Empresários de ônibus que operam na região reclamam também da concorrência dos "piratas oficiais". Eles calculam que os topiqueiros concorram com pelo menos 15 linhas regulares de ônibus de três empresas: Santa Maria, Litoral e Redentor. O presidente da Santa Maria, Paulo Valente, encaminhou ofício ao Consórcio Transcarioca (que reúne as empresas que atuam na Barra e em Jacarepaguá) relatando o problema. Paulo Valente afirma que muitas dessas vans param nos mesmos pontos dos coletivos na Estrada dos Bandeirantes. Já o ponto final dos ônibus da Santa Maria, na Colônia, é vizinho ao terminal das vans. O empresário evita críticas à prefeitura, mas diz que esperava um quadro diferente após a licitação.

— Por dia, só a nossa empresa deve perder pelo menos 7,2 mil passageiros para essas vans. É receita que deixa de entrar num momento em que vamos precisar investir na compra de ônibus articulados para circular no futuro BRT Transcarioca. Se os motoristas dessas vans estivessem cumprindo os roteiros, eles estariam abastecendo os ônibus com mais passageiros — disse Paulo Valente.

As bandalhas ocorrem às vésperas de a prefeitura bater o martelo sobre a revisão das rotas feitas pelas vans em Jacarepaguá porque muitos trajetos licitados não demonstraram viabilidade econômica, como admitiu o subsecretário de Fiscalização, Cláudio Ferraz. Segundo ele, técnicos da Secretaria municipal de Transportes estão em fase final de revisão dos roteiros das linhas. O trabalho deve ser concluído nos próximos dias para análise do prefeito Eduardo Paes

— O contrato com os operadores prevê revisões para manter o sistema equilibrado. São várias propostas em análise. O que está sendo verificado é como seria possível fazer modificações mantendo a filosofia de que as vans prestem um serviço complementar aos ônibus. Podem até passar por áreas comuns, mas sem concorrer com o serviço prestado pelo transporte de massas — disse Ferraz.

Faltam fiscais para coibir irregularidades

Para o presidente do Rio Ônibus, Lélis Marcus Teixeira, a questão das vans em Jacarepaguá está mal resolvida não apenas naquele bairro, mas em boa parte das zonas Norte e Oeste:

— A prefeitura tem que ser tão rigorosa na fiscalização tanto nessa região quanto na Zona Sul.

Enquanto as mudanças não ocorrem, sobram reclamações de passageiros.
— Antes da licitação, toda van autorizada a fazer lotadas circulava por aqui. Mas o serviço não era bom. Muita gente viajava em pé. O sistema licitado funcionou apenas no primeiro mês. Falta fiscalização — criticou a musicista Fabíola Bernardes, de 31 anos, que trabalha na Freguesia e chega a esperar quase uma hora por uma van ou ônibus na Avenida dos Mananciais.

Na Estrada do Pau da Fome, o cabeleireiro Ubiratan Amorim, de 48 anos, engrossa as críticas.

— De dia, ainda há van e ônibus, embora em pouca quantidade. Mas, depois das 23h, ou venho a pé da Taquara ou pego um táxi. Nesse ponto, nada mudou. Só a cor das vans — criticou Ubiratan.

A subsecretaria alega que mantém equipes atuando em Jacarepaguá e ainda monitora motoristas por GPS para evitar desvios. Mas nenhum desses fiscais foi visto pelos repórteres do GLOBO em duas visitas ao bairro. Nessas ocasiões, os repórteres contaram 49 vans em quatro horas cumprindo rotas irregulares. As placas anotadas eram de fato de vans licitadas, conforme checagem feita no site da SMTR.

Na área da antiga Colônia Juliano Moreira, até um estacionamento improvisado foi criado na Estrada Rodrigues Caldas, nas proximidades de um terminal de ônibus. O "espaço das vans" é vizinho a comunidades controladas por milícias. A 300 metros do ponto das vans, no fim de janeiro, havia uma faixa de agradecimento dos moradores ao vereador Marcelo Piuí (PHS) pelo "retorno das vans". O GLOBO procurou o vereador, mas ele não retornou as ligações. Em nova vista à Colônia na sexta-feira, a faixa já havia sido retirada

Um dos motoristas que opera uma linha em Jacarepaguá justificou a bandalha.

— As projeções da prefeitura estavam erradas. No Pau da Fome, por exemplo, foram autorizados 32 carros quando circulávamos com oito veículos. Falavam em carregar 11 mil passageiros por mês, mas se houver metade dessa demanda já é muita coisa. Por isso, muitos colegas passaram a fazer outras rotas — argumentou o motorista, que pediu para não ser identificado.

Ferraz alega que a fiscalização é rigorosa e que, enquanto os novos roteiros não são divulgados, os motoristas devem cumprir o contrato. De acordo com ele, o Código Disciplinar não prevê a cassação imediata da licença em caso de desvio de rota. A primeira multa é de R$ 1.250.
Cassação de licença só com reincidência

Apenas se o motorista for pego em duas reincidências, a prefeitura pode abrir um processo de cassação da licença (já existe um caso em análise). Ferraz observou também que, em alguns casos, a constatação da irregularidade é mais difícil de provar porque, ao abordar alguns veículos, eles estão sem passageiros. No fim do ano passado, a prefeitura contava com 78 fiscais e auxiliares para acompanhar o dia a dia de mais de oito mil ônibus, 33 mil táxis e mais de três mil vans licitadas ou com autorização provisória para circular. Ou seja, mais de 550 veículos por agente.

Ao todo, 392 vans operam em Jacarepaguá, divididas por turnos. Em uma das visitas ao bairro, o repórter do GLOBO embarcou em uma van licitada que seguia por um trecho da Estrada dos Bandeirantes, onde as lotadas são proibidas, pagando uma viagem até a Taquara com o cartão Riocard. Esse percurso irregular garante mais dinheiro no bolso para os bandalhas. Quando há integração, o topiqueiro recebe apenas R$ 1,10 e, se o passageiro não embarcar num ônibus, o motorista da van fica com R$ 1,62, já descontadas as comissões pelo uso dos cartões do sistema RioCard. No caso de a passagem ser paga em dinheiro, como fizeram alguns usuários que viajaram na mesma van, o responsável pelo serviço embolsa integralmente os R$ 3.

Os problemas com as vans licitadas não se limitam a Jacarepaguá. Na Zona Sul, é frequente encontrar vans que ligam a Rocinha e o Vidigal aos bairros da região com passageiros viajando em pé, o que é irregular. Alguns motoristas, quando não têm passageiros, também não cumprem o itinerário completo, na expectativa de retornar mais rápido em busca de novos usuários.

Números:

Vans: 392
São autorizadas a circular em Jacarepaguá.
Linhas de ônibus: 15
São prejudicadas pelos bandalhas.

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