terça-feira, 11 de junho de 2013

Um ano depois de inaugurado, BRT Transoeste ainda tem 15 estações inacabadas

11/06/2013 - O Globo

Algumas dessas plataformas já estão até pichadas, outras são usadas por população de rua; empreendimento já custou mais de R$ 900 milhões
Prazo de conclusão já foi prorrogado duas vezes pela prefeitura e, mais uma vez, não deve ser cumprido

TAÍS MENDES

Carros particulares aproveitam a pista exclusiva do BRT Transoeste no trecho entre Campo Grande e Paciência como estacionamento:: construtora responsável diz que obra ficará pronta até agosto Gabriel de Paiva / O Globo

RIO — Um ano após ser inaugurado, o BRT Transoeste, que liga Santa Cruz e Campo Grande à Barra da Tijuca, ainda tem 15 estações e um trecho de dez quilômetros inacabados. Algumas dessas plataformas já estão até pichadas. Outras são usadas por população de rua. A futura pista do BRT virou estacionamento de automóveis. As obras, sob responsabilidade da construtora Sanerio, ficam no trecho entre Campo Grande e Paciência. Pelo cronograma oficial, elas deveriam ter ficado prontas em 18 de janeiro deste ano, mas o prazo de conclusão já foi prorrogado duas vezes pela prefeitura, passando para 17 de junho. E, mais uma vez, não deve ser cumprido. Segundo a própria empreiteira, o trecho só deve ser entregue em 12 de agosto. O problema, no entanto, é apenas um dos muitos que atravessam o caminho do primeiro corredor expresso do Rio, empreendimento que já custou mais de R$ 900 milhões.
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Obras malfeitas — com apenas oito meses já precisavam de reparos — superlotação, atraso nas linhas alimentadoras, falhas de sinalização e um grande número de colisões e atropelamentos põem em xeque o sistema de ônibus concebido para ser o melhor do Rio. Até a sua maior qualidade, a rapidez, acabou virando um problema. O tempo de viagem entre Santa Cruz e Barra, no ônibus parador, por exemplo, caiu à metade (passou de duas para uma hora). Mas os ônibus rapidamente ficaram lotados, e o desconforto não demorou a aparecer. Inaugurado em 6 de junho do ano passado, o sistema, que começou transportando 90 mil passageiros por dia, já bateu 105 mil (mais 17%).
A manicure Fabiana Diniz comemora o tempo que ganhou com a chegada do BRT. Ela mora em Santa Cruz, trabalha na Barra, e levava até 1h30m para chegar ao Terminal Alvorada. No corredor expresso, a viagem dura cerca de uma hora, mas é no desembarque, na Barra, que começam os problemas:
— A estação de Santa Cruz e o BRT estão sempre muito cheios, mas a viagem é rápida. O pior é a baldeação no Alvorada. A fila para entrar no ônibus é enorme, e há dias que nem tem ônibus. Diariamente chego atrasada ao trabalho.
Moradora de Campo Grande, a diarista Regina Alves, de 48 anos, diz que o tempo economizado no corredor expresso é perdido na espera dos ônibus alimentadores para chegar até a estação Mato Alto:
— Nesse horário da manhã, está tudo sempre superlotado. É um ano de sofrimento, andando espremida nos ônibus.
Nas primeiras horas da manhã, a estação de Santa Cruz já está lotada. Painéis indicam o horário do próximo ônibus, que chega pontualmente. Mas também rapidamente o coletivo lota. O final da tarde no Terminal Alvorada também é congestionado. Depois de um dia de trabalho, a enfermeira Maria Cristina Reis, moradora de Santa Cruz, prefere esperar mais na fila a ter de ir em pé:
— É muita gente para pouco ônibus.
Mas, se em alguns pontos há gente demais, em outros há passageiros de menos. Duas estações (Dom Bosco e Golfe Olímpico, no Recreio) permanecem fechadas, apesar de prontas. Foram construídas e inauguradas sem que houvesse demanda suficiente. Resultado: viraram estações fantasmas.
A prefeitura diz que o problema da superlotação no Transoeste será resolvido com a chegada de 12 ônibus articulados, ainda este mês, e com os novos modelos de alimentadores, que terão duas roletas para agilizar o embarque.
Em março, o consórcio que opera o BRT foi multado pela prefeitura em R$ 50 mil por problemas como intervalos irregulares e falta de conservação nas estações. Os técnicos também identificaram, em alguns momentos do horário de pico, "níveis de conforto inadequados". O secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osorio, argumenta que o sistema é um sucesso, mas diz que há ajustes a serem feitos:
— A lotação é resultado do sucesso do BRT. Tivemos uma migração por conta do ganho de tempo que o passageiro tem. Esse aumento está ocasionando, em alguns momentos, no horário de pico, um nível de conforto que não consideramos o adequado para o passageiro.
Hoje, o BRT Transoeste tem 44 quilômetros e 44 estações, incluindo as duas fechadas no Recreio. Em relação às obras inacabadas, a Sanerio afirma que 80% dos trabalhos já estão concluídos e que parte do serviço teve o cronograma alterado a pedido da Secretaria municipal de Obras.
Apesar de ser um transporte mais racional — os ônibus usam pistas exclusivas e têm prioridade nos sinais de trânsito — o BRT tem chamado mais a atenção pelos acidentes em que se envolve. Colisões e atropelamentos já mataram pelo menos oito pessoas nesse primeiro ano. O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) chegou a fazer sugestões para alterar a sinalização. O engenheiro civil Antônio Eulálio, conselheiro do Crea, lembra que foram propostas medidas simples, como cancelas para impedir o tráfego de pedestres fora do local adequado:
— Na época, sugeri também a instalação de pórticos na pista central, indicando os acessos à esquerda, 300 metros antes, e sinais com temporizadores.
Osorio diz que grades não resolvem
A prefeitura argumenta que tem feito campanhas educativas para estimular a travessia nos sinais. Osorio anuncia mais uma, a partir do dia 17:
— Tomamos todas as providências possíveis para reduzir os acidentes. Desde fiscalização eletrônica, implantação de muretas e cercas vivas, nas principais travessias, e sinais onde não havia. Os acidentes ainda acontecem, mas numa frequência menor. Em geral, eles são provocados por pedestres que atravessam fora da faixa. Por isso, começaremos, no dia 17, uma nova campanha em toda a Avenida das Américas.
Osorio é contra a instalação de grades para impedir a entrada de pedestres no corredor:
— Temos um histórico não muito bem-sucedido com grades aqui no Rio. As pessoas pulam. A Avenida das Américas é uma via extensa, e colocar um muro de Berlim não resolveria o problema. O que funciona é educação, além de um bom entendimento do cidadão.
Apesar das campanhas da prefeitura, os acidentes não param. O último aconteceu no dia 3, quando José Rodrigues dos Reis, de 50 anos, morreu atropelado por um ônibus do BRT na Avenida das Américas, próximo à estação Pedra de Itaúna.
Com a conclusão do trecho entre Santa Cruz e Campo Grande, o BRT Transoeste passará a ter 54 quilômetros, com 59 estações.

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