segunda-feira, 4 de junho de 2012

Promessa de dias melhores para a Av. Brasil

03/06/2012 - O Globo

Prefeitura envia à Câmara novo Plano de Estruturação Urbana para revitalizar a via expressa mais famosa do Rio

A AVENIDA Brasil da vida real: ao longo de seus 58 quilômetros de extensão, da Rodoviária a Santa Cruz, fábricas abandonadas, favelas, desordem urbana e um trânsito caótico Gustavo Stephan

RIO - Na Avenida Brasil da novela das nove da Rede Globo, escrita por João Emanuel Carneiro, quase tudo acontece no bairro fictício chamado Divino. Na vida real dessa via expressa de 58 quilômetros de extensão, não poderia ser diferente. Ela é cenário de muitas histórias que são contadas desde o seu marco zero na Rodoviária Novo Rio, passando por 31 bairros, até chegar ao último deles: Santa Cruz. Mas, nos últimos 30 anos, a imagem que prevaleceu foi a da degradação: fábricas abandonadas, favelas, desordem urbana e trânsito caótico. Os próximos capítulos dessa história, porém, devem mudar para um final feliz, como ocorre na ficção. Um estudo inédito da Agência Rio Negócios que capta investimentos para o Rio , em parceria com a Empresa Júnior de Geografia da Uerj, revela que há 1,5 milhão de metros quadrados de áreas com alto potencial para novos empreendimentos, sendo 875 mil metros quadrados da iniciativa privada, em 24 quilômetros da Avenida Brasil, de São Cristóvão a Deodoro, capaz de gerar 7.500 empregos.

Baseada nesta análise, a prefeitura deu início ao processo de revitalização da avenida, incentivando a reutilização dos imóveis largados por seus proprietários. Há um mês, o corredor era apenas industrial. A prefeitura aproveitou os estudos para mudar o Plano de Estruturação Urbana (PEU) da Avenida Brasil, que está para ser votado na Câmara dos Vereadores, concedendo benefícios fiscais a quem investir em empreendimentos na via. Um deles é a isenção de IPTU por cinco anos, a partir do exercício seguinte ao da abertura do processo de licenciamento da obra.

Investimentos tanto públicos quanto privados

No último dia 25 de abril, o prefeito Eduardo Paes também sancionou a Lei Complementar 116, que permite a construção de edificações residenciais e multifamiliares; a subdivisão em lojas e salas comerciais; e a adaptação para o uso residencial de imóveis industriais. Pela legislação antiga, os grandes galpões só poderiam se transformar em residência caso virassem duas unidades, o que praticamente era inviável. Também há um investimento previsto de R$ 100 milhões em obras viárias e de R$ 1,3 bilhão no BRT Transbrasil, com inauguração prevista para janeiro de 2016.

Começamos a recuperar a Avenida Brasil em 2010, com o novo recapeamento do asfalto e a reconstrução de calçadas. Agora, com os parâmetros urbanísticos alterados na via e os incentivos fiscais, será possível despertar o interesse de empresários para que invistam na região. Vou olhando para frente, e ainda temos o BRT disse o prefeito.

O secretário municipal de Urbanismo, Sérgio Dias, ressalta que o ser humano não sobrevive sem condições urbanísticas:

No passado, ela era uma extensão da rodoviária. O Grande Rio não tinha tantos deslocamentos, e aí se pensou num corredor industrial. Houve um abandono das indústrias, o crescimento da violência, mas agora o momento é de recuperação econômica do Rio e de mais segurança. É um processo histórico que estamos mudando com a valorização paisagística e urbanística.

A aposta no fim do processo de esvaziamento econômico da Brasil não é só da prefeitura. Há outros investimentos previstos para curto prazo: a reforma do antigo estaleiro Ishibras-Inhaúma da Petrobras, no Caju; a instalação do Comando de Operações Especiais (Coe) da Polícia Militar quartel que abrigará unidades de elite, como Bope, Batalhão de Choque e Grupamento Aeromarítimo , no Complexo da Maré; e a construção do maior armazém de contêineres da América Latina, no Caju.

Basta alguns minutos na via expressa para perceber a necessidade de um choque de ordem. Nas passarelas que cruzam as vias, além de pedestres, há motos e bicicletas. Os muros são pichados com mensagens de todos os tipos. Mas é o otimismo do diretor-executivo da Agência Rio Negócios, Marcelo Haddad, que acaba afastando qualquer prognóstico negativo em relação à avenida:

Há muito mais do que lixo por lá. Existem áreas subutilizadas com potencial para setores diferenciados, por conta da sua logística por excelência. O primeiro é o centro de pesquisas e de tecnologia com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a UFRJ. Em seguida, vêm os setores imobiliário, de óleo e gás e industrial.

No mapeamento georeferenciado feito pela agência em 24 quilômetros da via expressa, constatou-se que há 1.500 imóveis, sendo 150 abandonados. Nos 875 mil metros quadrados de áreas privadas, há 170 imóveis, sendo 79% de galpões, 12% de prédios, 8% de terrenos e 1% de outros tipos. Há um milhão de pessoas vivendo ao longo do trecho, como a família de Maria Eduarda Alves, de 18 anos, que mora no prédio da Borgauto, falida loja de autopeças, em Ramos. O edifício de quatro andares foi invadido por cerca 250 famílias há 12 anos. Mãe de um bebê de 3 meses, Eduarda vive no pequeno apartamento com os pais, e paga R$ 300 de aluguel.

Morar no Rio é muito melhor que no Ceará. Aqui é ótimo. Tem condução para todos os lugares contou a jovem.

Avenida é o cartão de visita do Rio, diz empresário

Mas o retrato fiel do futuro urbanístico da Avenida Brasil está no número 14.820, em Parada de Lucas. Há 44 anos no local, a Pereira Máquinas e Metais reúne montanhas de peças de maquinário, seis aviões, dois tanques de guerra, pedaços de carros e outras cem mil peças. O dono do ferro-velho, Augusto Pereira, o Zeca, de 56 anos, sempre apostou no local e costuma ceder seu espaço para artistas como Vik Muniz, que usou sucatas para montar o videoclipe de abertura da novela Passione, da TV Globo, em 2010.

A via também precisa ser reurbanizada. A Avenida Brasil é o cartão de visita do Rio defende Zeca.

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